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Concurso Literário: Participe!
Há pessoas que gostam de letras. Da forma delas, do risco no papel, das figuras que lembram quando desenhadas. Há pessoas que gostam de palavras. Do que surge da combinação das letras, da sua ordem dentro do texto, do som que provocam quando pronunciadas. Há pessoas que gostam de livros. De folheá-los quando novos, de se aventurar e se deixar perder por suas páginas, de dormir com eles debaixo do travesseiro. E há aquelas que gostam de letras, de palavras, de livros e, principalmente, de gente. É, pode parecer estranho para alguns, mas existe gente que gosta de gente! Gente que escreve para gente, que se dedica à gente e gente que é um presente para a gente.
Meg é uma dessas pessoas que gosta de gente e, como se não bastasse ela mesma já ser um presente, resolveu nos dar um outro presentão. Não precisava, mas fez. Criou um concurso literário que é um presente: para quem participa, pela oportunidade de mostrar a ela, que tanto nos emociona com seus textos, um pouquinho dos nossos; para quem apenas observa, por nos permitir conhecer o que vai pela pena (ih! coisa antiga!) de gente como a gente. E espiar um pouquinho mais dentro desse seu coração tão surpreendente.
Livro de Cabeceira atual
Perdas e Ganhos, de Lya Luft (Editora Record, 2003)
Lya gosta de conversar sobre a vida. Lya gosta de escrever sobre a vida. Lya gosta de viver. E isso podemos notar pelo otimismo com que fala de mulheres: mulheres que choram, mulheres que calam, mulheres que já viveram muito, mulheres que foram impedidas de viver. À primeira vista pode parecer que Lya desfia sua escrita encantada sobre e para as mulheres que já apresentam uma longa jornada atrás de si. No entanto, mesmo as mais jovens não conseguem passar incólumes ao seu olhar atento, ao seu coração inquieto, à sua escrita transformadora. Tanto porque é possível observar situações que afligiram uma geração inteira, podendo reconhecer ali traços, pistas que muitas vezes vimos em nossas mães e avós sem entender muito bem; como porque compartilhar caminhos é para gente que se interessa por gente, independente da idade. E Lya é gente assim...
Construindo mundos
Já comentei em um de meus primeiros posts que leio por causa de meu pai. Por vê-lo sempre com uma revista, um livro na mão. Por despertar em mim o prazer insubstituível da leitura.
Pois logo assim que aprendi a ler, meu pai me chamou para conversar. Com uma grande caixa de papelão nas mãos (maior ainda naquela época), ele me disse que vinha guardando aquilo há muito tempo, para quando eu estivesse preparada. Ao abrir a caixa saltaram dezenas, inúmeras revistas em quadrinho, todas meticulosamente amarradas com barbante, seguindo uma ordem cronológica. Ele, que é fã de HQ, tinha feito uma coleção para quando eu soubesse ler. Foram infindáveis horas me deliciando com aquele novo mundo cheio de letrinhas que havia ganho de presente. Desde então, este mundo faz parte de mim.
Já comecei a construir um mundinho para meus futuros filhotes também...
Obrigada PAI!
Abrindo a caixinha de amigos
O que são amigos? São caixinhas que vamos recebendo sem saber o que contêm. Algumas são grandes, nem sabemos como carregar direito, e ficamos curiosos para saber o que há dentro. Outras são pequenas, delicadas, cabem na palma da mão. E também ficamos curiosos para saber o que guardam. Podemos receber a caixa inteira de uma só vez, sendo arrebatados pelo conteúdo. Ou então recebê-la aos pedacinhos, deixando-nos seduzir aos poucos pelos seus encantos.
Na verdade, cada caixa contém várias caixinhas, uma dentro da outra, que vamos abrindo, descobrindo, abrindo mais uma, e descobrindo mais um pouco. Quando abre-se a última caixinha, conseguimos vislumbrar um sorriso, um gesto, um traço outrora conhecido apenas em palavras. Essa caixinha agora tem uma voz, um rosto que, no entanto, não nos é estranho. Afinal, ele já estava contido em todas as outras caixas que vínhamos abrindo em cada post, em cada foto, em cada blog.
Às novas caixinhas de amigos que abri na noite passada: Cora, Cris, Angélica, Matuska, Leo, Paulo e Marcelo.
Com o que você escreve?
Eu costumava escrever com palavras. Pegava um substantivo daqui, um verbo dali, juntava um advérbio que estava logo adiante e, pronto! Tinha uma frase, em seguida um parágrafo. Logo já era um conto. Quando o fôlego era maior, um romance. Quando o coração batia mais acelerado, um poema.
Tem gente que escreve com o sorriso, como é lindo! Tem gente que escreve com o gesto, a expressão. Tem gente que escreve com o desenho, a pintura. Tem os que escrevem com a música, a dança. Há os que escrevem com o tempo, o espaço. E aqueles que escrevem com o arado, a enxada. Alguns escrevem com o tear, a agulha e linha. Outros com o olhar.
Há uma semana venho tentanto escrever diferente. Não, escrever com algo diferente. Tenho tentado escrever com imagens, mais precisamente com fotografias. Vi tanta coisa bonita que achei que também podia. Assim como um dia achei que podia rimar coração com paixão e daí sair poesia. Pode ser que minhas fotos nem digam muita coisa aos demais (os comentários são carinhos que recebo dessa gente gentil que freqüenta o mesmo espaço), assim como também minhas palavras. Mas estou feliz, como fico cada vez que me descubro capaz de fazer alguma coisa nova - se bem ou mal feita, aí já é outra história. Mas estou feliz por fazer, num lugar onde há espaço para todos os fazeres, os olhares, os escreveres.
E as palavras? Elas continuam por aqui, pois ainda são com o que de melhor sei escrever.
Se você ainda não sabe sobre o que estou falando dá uma passadinha no meu fotolog.
Esse obscuro objeto do desejo, como diria Buñuel
Que obscuro objeto é esse que desejamos colocar no papel?
O que nos atiça, comove, aflige a ponto de tentarmos traduzir em palavras?
O que nos faz acordar no meio da noite e carrega o sono para longe de nossa cama?
Escrevemos sobre o dia que amanheceu ensolarado, sobre os pássaros que vieram pousar em nosso jardim, sobre um filho que nasceu, sobre o estar apaixonada. Escrevemos porque sentimos um arrepio de contentamento ao reencontrarmos alguém que julgávamos perdido de nossa vida; porque nos extasiamos com sabores exóticos, perfumes sensuais e melodias envolventes. Escrevemos porque conhecemos pessoas interessantes. Escrevemos por prazer.
Mas também escrevemos sobre o dia nebuloso, a solidão que nos pega no meio do caminho, a morte ou a despedida de alguém querido. Escrevemos sobre o gosto amargo do ódio, sobre a melancolia que cultivamos apesar de tudo, sobre o mal-estar da modernidade. Escrevemos porque nos decepcionamos com alguém. Escrevemos por dor.
Escrevemos porque vivemos. Cada gota, cada partícula, cada nuance da vida que absorvemos gera um verso, um conto, um inicio de romance. Como se viver não bastasse, cada vivência é então transformada em palavras. Palavras que vão encontrar eco fora de quem escreveu, vão se reconhecer em outras pessoas, buscar um cantinho nelas e se aninhar. E ali permanecerão como se fossem suas.
Como escreveu Walt Whitman:
Às vezes com quem amo fico
cheio de raiva,
por medo de estar dando amor
não retribuído;
agora penso porém que não há
amor sem retribuição,
a paga é certa de uma forma
ou outra.
(Amei certa pessoa ardentemente
e meu amor não foi
retribuído,
mas desse alguém eu tirei com
que escrever estes cantos.)
(Às vezes com quem amo, de Walt Whitman, em "Folhas de Relva")
Há, no entanto, outro objeto de desejo que gera a escrita: outros escritos. Sim, porque antes de tudo somos leitores; e o que lemos vêm se aninhar em nós também. Algumas vezes essas palavras, não contentes em ficarem quietinhas, aninhadas, querem gerar novas palavras inspiradas pelo que foi lido. É o caso do pungente Saia de mim, escrito pelo Caco, ou dos desenhos inspiradores e inspirados da Giniki.
Vinícius fez isso comigo O dele:
Trecho
Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
(Vinícius de Moraes, "Antologia Poética", Companhia das Letras, 1992)
O meu:
Historieta
Quem há de dizer que não fui eu
quem roubou tua última quimera?
Saltei a janela de teus sonhos
pra poder alcançar teus olhos
e com eles iluminar minha espera...
E quem já de me julgar
pelo que fiz?
Só quem não te viu roubando
meu beijo pra te fazer feliz...
(Ronize Aline, em 1990)
Quando eu escrevo...
O jornal O Globo de hoje, aproveitando o gancho da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), pediu a alguns escritores presentes ao evento que escrevessem algo continuando a frase do título desse post. Teve de tudo: resposta curta, longa, filosófica, pragmática. Elas me fizeram pensar que...
Quando eu escrevo é para dar vida a algo que já existe. Sim, porque sou daquelas que vão montando o quebra-cabeça dentro da cabeça mesmo, juntando os pedacinhos, gestando as idéias e tecendo o emaranhado de palavras (claro que não é a versão final de um texto, apenas o seu fluxo impulsor). Quando sento em frente ao computador, ou com a caneta na mão porque alguns hábitos a gente não abandona assim tão fácil, apenas deixo jorrar. Essa primeira versão já contém a alma do texto, o que ele pretende dizer. Depois, é só questão de lapidar o corpo!
Sopa de letrinhas
A Cris viu essa foto lá no meu fotolog e achou que tinha tudo a ver com a poesia aí de baixo.
Então aqui está.