Feliz Natal a todos!
Natal sempre foi tempo de limpar e enfeitar a casa; e isso incluía as minhas bonecas. Umas duas semanas antes, entre a arrumação de um armário da cozinha e um guarda-roupa, minha mãe se distraía dando banho na minhas pequenas - claro, as que podiam receber tais cuidados. As mais sensíveis - ou seja, as que executavam alguma função como chorar ou mastigar a gororoba que costumava dar supondo ser comida e que por isso apresentavam mecanismos eletrônicos - recebiam apenas uma toalha molhada nas faces. Era só chegar no jardim e lá estavam elas, totalmente nuas e esparramadas como que desfrutando daquele banho de sol merecido, até que seus cabelos secassem por completo. Teve um ano em que ela se empolgou e resolveu mudar um pouco o visual tosando suas madeixas. Após esse momento recompensador, vestiam novamente suas roupas - já devidamente lavadas e passadas. Então eram dispostas lado-a-lado em várias cadeiras na sala e ali ficavam durante dias. Chegada a noite de Natal elas iam, limpas e fagueiras, enfeitar a minha cama.
Desde pequena acompanhei o início da montagem da árvore de Natal, que na nossa casa lá no Sul vivia coberta de neve. Uma neve de algodão colocada displicentemente pela minha mãe junto a bolas coloridas, luzes piscantes e adoráveis cabelos de anjo prateados. Eram pinheiros imensos, quase tocando o teto, que levavam uma noite inteira para ficarem daquele jeito. Digo que acompanhava o início da montagem pois a minha pouca idade era insuficiente para vencer o sono: eu só veria a árvore completa na manhã seguinte já completamente encantadora.
Nunca tive medo de Papai Noel. Mentira!, tive sim. Um ano meus pais compraram um boneco, devia ter um metro mais ou menos, vestido como o bom velhinho. Colocaram-no próximo da árvore e, lá pela meia-noite, quando chegamos da casa dos meus tios onde tínhamos jantado, alguém me disse que Papai Noel estava na sala me esperando. Por nada neste mundo quis entrar lá, com medo de encontrá-lo em carne e osso. Até mesmo depois que me garantiram ser apenas um boneco ainda estava receosa do que encontraria do outro lado da parede. Por fim a curiosidade - e a vontade de abrir os presentes - foi maior. Para a posteridade, uma foto retratando aquele momento que não consegui encontrar para ilustrar esse texto.
Ano passado foi o primeiro Natal em nossa casa depois do nosso casamento. Chamamos meus pais e meus sogros para dividir o peru e aquele momento de alegria. Na ocasião meu pai brincou com a receita do meu peru, dizendo ser o único que ele conhecia que tinha sido embriagado com champanhe em vez de cachaça.
Esse ano trocaremos o peru por alguma outra ave festiva e nossa árvore não terá a estrela no alto. Temos agora uma estrela de brilho permanente a iluminar nossos caminhos. Feliz Natal, Pai!
Memória de natais passados...
de volta com...
Crônicas de Atlanta - 3
Cow Hospital, vacas para todos os gostos
Havia vacas por toda parte. Virávamos a esquina e ops!, lá estava uma pintada com as cores da bandeira americana. Atravessávamos a rua e encontrávamos outra decorada em estilo completamente diferente. Pergunta daqui, pergunta dali, descobrimos que se tratava de um movimento artístico. A resposta definitiva veio no Underground Atlanta, um misto de mercado, área de lazer e praça de alimentação dentro da estação Five Points do Marta (o sistema metroviário de lá). Juntamente com lojas de roupas descoladas e cafeterias coloridíssimas, estava o Cow Hospital - local onde se encontrava a maioria das vacas participantes do evento na cidade de Atlanta. Sim, porque esse é um evento que ultrapassa as fronteiras da cidade e até mesmo do país.
O primeiro evento público de arte chamado CowParade aconteceu na Suiça, em 1998, com o artista plástico Pascal Knapp esculpindo vacas em tamanho natural que foram expostas pela cidade. No ano seguinte a idéia já tinha migrado para Chicago, um ano depois para Nova Iorque, e hoje se estende por várias cidades dos Estados Unidos, além da Irlanda, do Japão, da Inglaterra, da Nova Zelândia e da Austrália. Atualmente são três os modelos esculpidos por Knapp que a cada ano são decoradas por novos artistas das cidades em que serão expostas. Ao final do evento, as vacas são arrematadas em um leilão - no qual pode-se participar inclusive pela Internet - e a renda obtida vai para instituições como a American Cancer Society. Além dos leilões, outra forma de arrecada fundos é por meio da venda de miniaturas decoradas à semelhança daquelas em tamanho natural. Há vacas para todos os estilos: vaca-gondoleiro, vaca- Doroty do Mágico de Oz, vaca-psicodélica, vaca-Tartaruga Ninja, vaca-surfista, vaca-jogo da velha...
Deixando as vacas de lado, Atlanta é a cidade de Martin Luther King, Jr. A casa de dois andares onde nasceu o médico que ficou famoso por lutar pelos direitos dos negros é parada obrigatória para quem se aventura por lá. Além disso há o The King Center, no qual pode-se conhecer objetos pessoais do Doutor King e sua família, acompanhar alguns movimentos em prol dos direitos civis e assistir a um filme em que é difícil não se emocionar ao ouvi-lo discursando. Próximo dali, no centro de uma piscina e em frente ao monumento da chama eterna, está depositado o corpo do líder negro. O Centro foi construído em frente à Igreja Batista Ebenezer, templo no qual Martin Luther King, Jr. pregava ao lado de seu pai, o Reverendo Martin Luther King. O local também foi utilizado para abrigar reuniões nas quais eram planejadas as estratégias de direitos humanos baseadas nos princípios de ação direta de não-violência - o cerne de todos os seus discursos.
Behold Monument, em frente ao The King Center
Um anjo chamado Américo
Não quero falar da dor.
Quero falar das tardes de domingo que, criança, deitava ao seu lado, encostava a cabeça em seu ombro e tentava decifrar o que estava escrito nos livros e revistas que o entretiam por horas.
Não quero falar da dor.
Quero falar de quando, ainda com cinco anos, o vi retirar uma grande caixa de papelão do armário. "Tome, é toda sua", ele disse. E pôs-se a abri-la, tirando de lá pilhas e mais pilhas de revistas em quadrinho, meticulosamente classificadas e amarradas, que tinha colecionado para quando eu soubesse ler.
Não quero falar da dor.
Quero falar das vezes em que ele chegava em casa e eu corria para que me suspendesse no ar e me acarinhasse em seu abraço. Quero falar do dia em que não conseguiu mais me levantar e, nesse dia, descobri que tinha crescido demais para aquela brincadeira.
Não quero falar da dor.
Quero falar dos almoços de quarta-feira que no último ano e meio, desde que me casei, fazia em sua companhia. Era quando perguntava ansioso pelas minhas novidades e contava alguma nova idéia que tivera de invenções que nasciam e morriam na sua cabeça, jamais se tornando realidade.
Não quero falar da dor.
Quero falar de como se emocionava ao ler meus contos e como acreditava que um dia conseguirei publicá-los; dizendo até mesmo ao médico, em seus últimos dias, que a filha dele ainda será uma 'grande escritora'.
Não quero falar da dor.
Quero falar de como esperava ansioso a postagem de um novo texto no blog ou uma nova foto no flog para comentá-los comigo. E como fazia questão de indicá-los aos amigos.
Não quero falar da dor.
Quero falar do seu jeito calmo e tranqüilo, que cativava à primeira vista. Era avesso a desentendimentos, por isso tratava as pessoas com uma doçura ímpar.
Não quero falar da dor.
Quero falar das duas únicas vezes em que o vi chorar. A primeira, quando meu avô faleceu. A segunda, ao fim da cerimônia do meu casamento quando, imagino, devia estar vivendo emoções contraditórias: estava feliz como fica todo pai que sabe que a filha será também feliz, mas estava sentindo a dor de ver sua filha única sair de casa, depois de 32 anos de convivência.
Não quero falar da dor.
Quero falar de seu coração crescido demais que, para a medicina, era uma doença; para mim, a explicação de ter em si tanto amor para dar. Parecia viver para servir aos outros, principalmente à sua família.
Não quero falar da dor.
Quero falar da admiração que sinto por tudo que ele foi e do orgulho de ser sua filha. Por ter sido um homem íntegro, incapaz de ludibriar ou tirar proveito de outros, um exemplo de virtude que fazia questão de passar adiante.
Não quero falar da dor.
Queor falar do homem que mais me amou nesse mundo. E sei que o Marco entenderá o que estou dizendo, pois teremos filhos e tenho a certeza que ele será tão devotado a eles quanto meu pai foi a mim.
Não quero falar da dor, mas preciso.
Ela se adianta e se apresenta de uma forma incomum. Talvez não seja exatamente dor, mas uma agonia, como ele mesmo dizia que estava sentindo nos últimos tempos. Não é um vazio no peito ainda, como muitos alegam, mas sim um peso extra. Como se todas as coisas que planejava ainda viver com ele se fizessem presentes de uma só vez.
Não há dor por coisas que gostaria de ter dito e não disse; não, sempre fiz questão de colocar em palavras e gestos todos os meus sentimentos. Quanto a isso sinto-me feliz.
Há dor pelos netos que ele não teve, pelas viagens que ainda faríamos, por não me ver formada doutora como me viu mestre, por não poder mais vislumbrar o brilho em seus olhos a cada vitória minha, quem sabe, como ele mesmo acreditava, no lançamento de um livro.
Uma dor que urge há uma semana.
Te amo, Pai, meu mais novo anjo de luz!
