Não podia ver absolutamente nada. Os batentes da janela estavam fechados. Não havia luz escoando por parte alguma. Sentia o ar cada vez mais frio, mas era apenas a frieza de seu peito descoberto. Aos tatos, ajeitou a gola bem engomada de seu roupão. Estendeu o braço. Estava nua sob o roupão. Não conseguia se lembrar de quando poderia ter se despido por completo. Também não se recordava de quando vestira aquele roupão pesado. Ah, era isso! Esse quarto era contíguo àquele de onde se avistava o rio. Provavelmente entrara nele antes de Yuchi e trocara de roupa. Nesse momento, Yuchi deveria estar do lado de fora da porta corrediça. Por fim, apagaram também as luzes no quarto vizinho. Yuchi saiu do quarto escuro para entrar em outro ainda mais escuro. Kyoko mantinha os olhos firmemente cerrados. Foi então que tudo começou, terminando em um sonho. Tudo acabou em uma perfeição incontestável.
O jogo do mostra-esconde revelando muito mais do que palavras explícitas. O trecho acima faz parte do livro Cores Proibidas, de Yukio Mishima, ambientado na dualidade de mundos vivida por um homossexual no Japão: o mundo gay das relações instantâneas e o pesado mundo heterossexual do casamento e das amantes por conveniência. O trecho narra o ato sexual entre Yuchi, o protagonista, e Kyoko, mulher casada e apaixonada pelo rapaz, sem no entanto abrir mão da poesia.
Mishima cometeu suicídio ritual aos 45 anos no mesmo dia em que terminou seu último livro, A queda do anjo. Recentemente foi lançado no Brasil outro livro seu, Confissões de uma Máscara, de 1949.
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Faz sete meses e ainda sonho com ele toda semana, às vezes até três noites seguidas. O que mais me deixa com o coração apertado é saber que não poderei mais enredá-lo com meus braços. Sinto falta do carinho, do abraço apertado, do cheiro de pai. Em muitos dos sonhos sei que ele está para morrer e abraço-o muito, querendo aproveitar enquanto não acordo. Num dia desses ele morreu em meus braços. Mas em muitos ele melhora e não chega a morrer.
Alunos incríveis com os quais tive o prazer de conviver no semestre passado estão com um projeto interessantíssimo para quem está apenas começando o curso de Jornalismo. É a revista virtual Rio em Revista, na qual carinhosamente colocaram um texto (seção Livros) já postado aqui no Palavra & Tal sobre meu pai, escrito logo após o falecimento.





