21.8.04
O HAMBÚRGUER ERA DE CARNEIRO
Adoro livros infantis. Assim como adoro teatro infantil. E isso não deve-se ao fato de que escrevo para esse público. Deve-se, sim, às possibilidades infindáveis do imaginário infantil. Sempre me comovo, me surpreendo, me divirto, me permito sonhar sem vergonha ou limites quando abro um livro desses. Essas narrativas me fascinam pelo que permitem e pelo que fazem acontecer. Todos nós, adultos, deveríamos ter a sua leitura como hábito diário.
Isso tudo para dizer que, mais uma vez, deixei-me arrebatar por um título que, à primeira vista, não é direcionado a nós, crescidinhos. Se bem que, no fundo, acredito que escrevemos para as crianças o que gostaríamos de escrever para nós mesmos e nossos pares e, no entanto, não temos coragem. Castramo-nos. Voltando ao livro, O Hambúrguer era de Carneiro é uma dessas leituras que nos pegam de primeira e não nos largam até que a terminemos. No livro somos convidados a acompanhar a viagem de duas primas e sua avó à Índia, contada no diário das meninas. Ao longo de suas páginas, Daniela Chindler nos presenteia com lendas, hábitos, costumes e curiosidades daquele país que, por si só, já é um convite à nossa imaginação. E o que dizer das ilustrações, tão essenciais em livros desse gênero? A premiada Mariana Massarani não se limita a apenas ilustrar a história mas acompanha a autora na arte de contá-la, fazendo com que desenho e texto interajam sem que um se sobreponha ao outro. E há, ainda, as fotos de Adriana Pavlova, que foram encantadoramente acrescidas dos desenhos de Mariana. É preciso ler e se deixar encantar!
Ilustração de Mariana Massarani para o livro
14.8.04
passado em chamas
Ontem recebi a notícia de que o Instituto Maria Auxiliadora, colégio em que estudei em Santa Catarina, pegou fogo. Havia apenas três colégios particulares na minha cidade: o IMA, dirigido pelas freiras salesianas; o Dom Bosco, dirigido pelos padres salesianos, e o Rui Barbosa, de direção evangélica. Do jardim da infância até o final do primeiro grau construí meu caminho do conhecimento sob orientação das freiras. No segundo grau, os padres tomaram esse lugar, já que o Dom Bosco era o que melhor preparava para o vestibular enquanto o IMA direcionava direcionava seus alunos para o magistério.
Enquanto minhas memórias do Dom Bosco são as da adolescente começando a descobrir novos mundos, o IMA é onde descobri meu primeiro mundo. A primeira professora, os primeiros coleguinhas, os primeiros estudos, enfim, onde me descobri gente. Era em seus pátios, hoje devastados pelo fogo, que eu passava os recreios lendo, conversando e fugindo das perigosas bolas de vôlei, handebol e futebol que insistiam em me perseguir. Era em seus corredores que nos embrenhávamos às escondidas afoitos por descobrir como eram os quartos das freiras, um grande mistério para nós. O que para nós constituia-se em grande aventura pois se fôssemos apanhadas era castigo na certa.
Foi lá que comecei a estudar piano, com uma freira velhinha chamada Irmã Luizinha, o terror de quem passasse correndo em frente à porta de seu gabinete ou entrasse nele mascando chiclete. Foi lá também que comecei a patinar e, em seu salão, fui eleita Rainha do Clube de Patinação Girassóis. Foi lá que fiquei abrigada com meus pais durante a enchente de 1983 porque nossa casa ficou debaixo da água. O IMA fica no alto de um morro e serviu de abrigo para inúmeras famílias cujas casas por muito tempo foram suas salas de aula. Foi lá que conheci Berenice, minha jovem professora de português apaixonada por literatura e que lia entusiasmada minhas incursões pela poesia. Ela me fez acreditar que eu podia escrever - acho que graças a ela insisto.
Há duas semanas voltei de lá. Fui passear, visitar parentes e, ao contrário de minha última visita à cidade, não fui visitar o IMA. Contam que porque o colégio situa-se no alto, o fogo põde ser visto de diversas partes da cidade. Fico feliz de ter voltado antes. Prefiro guardar intactas minhas memórias longe do fogo.

10.8.04
em cont[R]os
Mariana brincava no balanço, num vai-vem ritmado.
Maria Lúcia brincava na sua mente, coração descompassado.
Maria Lúcia olhava Mariana, se distraía, cuidar de criança nunca fôra seu sonho de vida. Até que Mariana não dava trabalho. Maria Lúcia olhava Mariana.
Os pais de Mariana é que às vezes se excediam, viam perigo em toda esquina. Está certo que têm dinheiro, mas sequestro não acontece assim a toda hora, pensava Maria Lúcia.
Mariana no balanço ia e vinha.
Normalmente não perdia a menina de vista, mas hoje estava difícil se concentrar.
Oswaldo saiu de casa, confessou que tem outra, aquela mal-amada da Teodora conseguiu roubar meu marido. E o desgraçado nem dinheiro para o aluguel deixou.
 Mariana se balançava cada vez mais alto, parecia querer alcançar as nuvens.
Maria Lúcia procurou um lenço no bolso, droga! botei para lavar. Então enxugou as lágrimas com a manga do uniforme. Sentou-se no único banco livre, não queria conversar com nenhuma das outras babás. Teria de contar que foi abandonada.
O vento levantava a saia de Mariana, que ria despreocupada dos problemas de Maria Lúcia.
Queria voltar a ser criança, pensou a moça, na verdade querendo que Oswaldo voltasse para casa.
Posso ajudar?, o moço oferecia um lenço bonito para Maria Lúcia. Sem saber o que fazer aceitou e enxugou a face com cuidado para não manchá-lo com o pó-de-arroz. Não posso ver uma moça bonita chorando assim. Pronto, aquele rapaz educado conseguiu fazer Maria Lúcia sorrir.
Ao longe ouvia-se a risada gostosa de Mariana.
Quando viu o rapaz estava sentado ao seu lado. Maria Lúcia respondia sem saber por que respondia. E o peso do seu peito parecia esvanecer-se. Não sentiu o tempo passar, parecia ter ficado horas naquela conversa.
Onde fôra parar o riso de Mariana?
Os olhos se voltaram aflitos por desmentirem o que os ouvidos haviam pressentido. O balanço de Mariana fazia vazio a sua dança com o vento. As crianças ao redor brincavam alheias ao desespero de Maria Lúcia. O rapaz, até então tão interessado, estava atrasado para um compromisso e não poderia ajudá-la a procurar a menina. Se tivesse olhado para trás, teria visto um sorriso brotando no canto dos lábios daquele desconhecido.
Então me liga, quase suplicava a moça entregando um papel com um número borrado.
Não houve telefonema para Maria Lúcia. Nem no dia seguinte, nem em qualquer outro dia. Mas os pais de Mariana receberam o fatídico telefonema com uma voz que, se Maria Lúcia ouvisse, teria reconhecido imediatamente. Mas ela já não trabalhava mais ali.
8.8.04
Memórias de domingo
Costumava passar os domingos de inverno na cama, entre meu pai e minha mãe. Ainda não estava na idade de sair, marcar encontros com amigos ou paquerar. Meu grande prazer era pousar minha cabeça no ombro de meu pai e alternar minha atenção entre o que ele estivesse lendo e o programa na tv. Ele sempre estava lendo alguma coisa, fosse a Veja da semana, um livro ou algum manual de instruções. Vez por outra lançava um olhar para a tv e em seguida voltava-o para sua leitura.
Minha mãe ficava um pouco no quarto e um pouco na cozinha, onde preparava o almoço, o lanche da tarde, alguns belisquetes - pois que inverno em cidade do sul do país dá uma fome - o lanche da noite...E eu só retirava a cabeça do ombro de meu pai nessas horas de refeição. Ou então quando ele reclamava, brincando, do meu excesso de beijos e abraços - tantos que chegavam a atrapalhar-lhe a leitura. "Chiclete. Não sei de quem você herdou essa mania de tanto beijo", costumava dizer, para logo em seguida oferecer-me novamente seu ombro.
Ao cair da noite era o momento das resenhas esportivas. Ele somava à sua leitura o radinho de pilha encostado no ouvido, para não atrapalhar o que estivéssemos vendo na tv. Sintonizado na rádio Tupi, mantinha um hábito adquirido quando ainda morava no Rio. Quando atacavam o seu Vasco, esquecia-se que era apenas um rádio e desandava a defender sua grande paixão. Paixão essa que fez com que por ocasião do seu segundo infarto, estando na UTI em dia de jogo do Vasco, pediu ao cardiologista permissão para minha mãe levar-lhe um radinho a fim de que pudesse acompanhar a partida. Logo ele que, devido aos problemas de coração, não conseguia assistir a um jogo inteiro do seu time pela tv. Acompanhava-o pelo rádio. Se o Vasco fizesse um gol ou a partida estivesse favorável a ele, então arriscava-se a assistir a alguns momentos. Quando a situação se invertia, desligava a tv, o rádio e ficava aguardando alguma manifestação dos torcedores vizinhos, para só então voltar a acompanhar a partida. Minha mãe, aflita com as conseqüências que uma derrota poderia ter sobre o coração de meu pai, acendia uma vela e rezava para que a cruz de malta brilhasse vitoriosa. Minha mãe virou torcedora do Vasco pela saúde de meu pai.
Hoje, dia dos pais, o primeiro sem ele, só queria poder novamente deitar minha cabeça em seu ombro e acompanhar de perto sua leitura.

4.8.04
Luís Fernando Veríssimo recebe guarda-chuvadas em evento literário
Quer saber mais?
Então leia o meu conto vencedor do concurso da revista Paralelos e do Portal Literal.
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Dia 24 o Palavra&Tal fez 1 ano. Como eu estava viajando, o bolo veio só hoje.

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