by Ronize Aline

16.8.05

Trezentos toques

Est? no ar uma edi??o do Paralelos com contos at? 300 toques. O meu Festa de Anivers?rio est? l?.

Tamb?m no especial a entrevista que fiz com Santiago Nazarian e a resenha do seu livro mais recente, Feriado de mim mesmo.


Adriana Lisboa

A querida Adriana Lisboa venceu o Pr?mio Funda??o Bunge para romance categoria juventude.

Alberto Mussa

A pedido da ador?vel Magaly, publico abaixo a entrevista que fiz com o Alberto Mussa para o especial Paralelos sobre a Flip:

Entre o Ocidente e o Isl?

Neto de libaneses por parte de pai, o escritor Alberto Mussa ? convidado da Flip 2005 para participar da mesa "Caminhos que se bifurcam", juntamente com o turco Orhan Pamuk. O foco da conversa ? o encontro do nativo e do mesti?o, do Ocidente e do Isl? na literatura dos dois. Mussa, em seu mais recente romance "O Enigma de Qaf", faz uma recria??o da mitologia ?rabe pr?-isl?mica por meio de hist?rias que se desdobram e se fundem, do real e do fantasioso que se mesclam ao longo da narrativa (ver resenha). O escritor brasileiro conversou com o Paralelos sobre a Flip, a literatura ?rabe e "O Enigma de Qaf", que recebeu os pr?mios APCA 2004, Casa de Las Am?ricas 2005 e foi considerado pelo jornal O Globo o melhor romance brasileiro de 2004.


O livro "O Enigma de Qaf" faz uma recupera??o de heran?as ?rabes: cultural, religiosa, matem?tica e principalmente liter?ria. Esse foi o seu prop?sito com o livro?
De certa forma, sim. Eu escrevi em primeiro lugar a hist?ria principal, aquela dividida em 28 cap?tulos segundo as letras do alfabeto ?rabe, motivado pela tradu??o que eu estava fazendo dos Poemas Suspensos (a obra m?xima da poesia pr?-isl?mica). Mas como o texto ficou curto, acabei tendo a id?ia de intercalar cap?tulos independentes, ficcionais, mas que davam a apar?ncia de recuperar toda a mitologia ?rabe da era pr?-isl?mica. Essa id?ia, contudo, surgiu depois, quando metade do livro j? estava escrita.

Em determinado trecho h? uma men??o expl?cita ao Sr. Mussa, que busca reconstruir um poema cuja autenticidade ? contestada. Podemos dizer que esse narrador ? seu alter-ego? Qual o peso da hist?ria familiar para as hist?rias que s?o escritas?
Na verdade, a personagem Mussa sou eu mesmo, e n?o meu alter-ego. ? uma brincadeira, certamente. Mas o texto (apesar da refer?ncia a meu av? e ? minha fam?lia em geral) n?o tem nenhuma base em fatos, ? toda ficcional. Procuro um caminho liter?rio que n?o tenha nem experimento ling??stico, nem investiga??o da realidade, nem aprofundamento psicol?gico, nem explora??o da mem?ria. Essas foram as tend?ncias fundamentais da narrativa do s?culo 20. Quero fazer algo diferente, me aproximar mais da mitologia, por exemplo.

Ao falar de Shahrazad e Allahdin voc? diz que uma hist?ria leva ? outra e ? outra, sendo que no fundo todas n?o passam de uma hist?ria s?. Que hist?ria ? essa da qual todos fazemos parte e sobre a qual escreve-se tantos livros?
A id?ia era apenas liter?ria: dizer que o n?mero de hist?rias poss?veis ? finito, por isso uma hist?ria desemboca em outra e assim sucessivamente at? chegar ? hist?ria inicial. Como tal movimento leva ? id?ia do c?rculo, que ? um s?mbolo do infinito, temos esse efeito, essa sensa??o de algo contradit?rio, porque esse mesmo encadeamento induz a pensar que as hist?rias interligadas s?o na verdade uma ?nica hist?ria. Ou seja, o infinito ? o pr?prio n?mero 1. Gosto de fazer pequenas brincadeiras com no??es matem?ticas, porque ? muito raro ver isso em literatura. A matem?tica pode ser uma fonte poderosa de motivos liter?rios.

A leitura de "O Enigma de Qaf" sugere a exist?ncia de uma pesquisa anterior ? escrita. ? correto afirmar isso? A pesquisa costuma fazer parte do seu processo criativo?
Na verdade, n?o houve pesquisa no sentido de um projeto ordenado de leitura para colher as informa??es utilizadas. At? porque muita coisa apenas parece ser verdadeira, n?o passando de pura inven??o (por exemplo, a hist?ria do alfabeto mim?tico). Aconteceu que eu escrevi o Qaf enquanto fazia a tradu??o de poesia pr?-isl?mica e isso me obrigou a fazer muitas leituras. Acabei usando muita coisa, ? claro. Como qualquer livro de qualquer autor, o Qaf traz fundamentalmente as marcas dos livros que eu li.

Ao longo do livro voc? diz que "a filosofia ?rabe passou a ser, essencialmente, teol?gica: ou isl?mica ou crist?". At? que ponto voc? v? a religi?o agindo tamb?m sobre a literatura ?rabe?
Na literatura ?rabe medieval, como nas literaturas europ?ias do mesmo per?odo, havia livros que tratavam especificamente da quest?o religiosa, fossem tratados jur?dicos (porque o estado era teol?gico) fossem obras de filosofia. Naquilo que a gente pode chamar de fic??o, a religi?o n?o tem tanta import?ncia, a n?o ser nos textos de natureza cr?tica, quando os fundamentos do islamismo s?o satirizados ou questionados. Mas o islamismo em si n?o teve mais import?ncia para a literatura ?rabe do que teve o cristianismo para as literaturas da Europa.

Como voc? v? a influ?ncia da narrativa ?rabe na literatura mundial? "As mil e uma noites" - cuja primeira tradu??o direto do ?rabe para o portugu?s est? sendo lan?ada - ? a grande obra ?rabe?
As mil e uma noites s?o uma obra fundamental, mas n?o s?o a grande obra ?rabe. Ali?s, qual a grande obra italiana, qual a grande obra inglesa, qual a grande obra brasileira? As pessoas s? reconhecem como importante para a literatura ocidental as Mil e uma noites. Quando os ?rabes foram expulsos da Europa, toda a mem?ria do que foi realizado desapareceu, toda a literatura ?rabe que influenciou o mundo europeu foi esquecida. Hoje, ningu?m reconhece a preced?ncia ou a influ?ncia ?rabe na novela picaresca (como o Lazarilho de Tormes), nos romances de cavalaria, em verso ou em prosa (incluindo o Quixote), em poemas ?picos como o de El Cid ou A divina com?dia, nos livros de exemplos (como o do Conde Lucanor e A nova Floresta), na literatura de viagens (como a Peregrina??o de Fern?o Mendes Pinto), no romance filos?fico (como os de Voltaire), na literatura er?tica ou em livros como o Decamer?o e mesmo o Robinson Crusoe.

Na Flip voc? vai participar com o escritor turco Orhan Pamuk da mesa intitulada "Caminhos que se bifurcam". A literatura brasileira ? uma mistura de qu??
Nenhum fen?meno cultural ? puro. H? sempre converg?ncia de culturas, influ?ncias rec?procas, trocas de id?ias e formas. O conceito de Literatura nacional como algo que tem um car?ter pr?prio, que ? o car?ter do povo que a escreveu, ganhou for?a no s?culo 19, com o desenvolvimento das id?ias sobre ra?a. Essas coisas est?o completamente ultrapassadas. A pr?pria divis?o entre ocidente e oriente ? um equ?voco conceitual absurdo, mas que ainda sobrevive em quase todos os discursos. A literatura brasileira, como qualquer literatura, tem simultaneamente muita coisa original e heran?as m?ltiplas, de diversas tradi??es.

Como voc? v? um evento nos moldes da Flip, durante a qual a cidade inteira respira literatura, para a rela??o escritor-leitor? E a rela??o entre escritores, acontece de fato?
Nunca estive na Flip, mas j? fui convidado para o Festival de Literatura de Berlim, que tem alguma semelhan?a. A intera??o com o p?blico l? foi muito intensa mas com os autores nem tanto, em fun??o de os eventos em Berlim se realizarem em pontos muitos distantes uns dos outros. Acredito que em Paraty, pelas caracter?sticas da cidade, a rela??o com o p?blico ser? melhor; e com os autores tamb?m, j? que as pessoas ficar?o nos mesmos hot?is.


Ronize Aline postou ?s 23:57
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