by Ronize Aline

29.1.07
Mais resenha no Prosa&Verso

No último sábado, dia 27, saiu mais uma resenha minha no suplemento literário d'O Globo. O texto é sobre o livro de André de Leone, "Hoje está um dia morto", vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 na categoria romance - juntamente com o "A secretária de Borges", publicado n'O Globo e reproduzido abaixo.

Eis a resenha:

Turbilhão iconográfico da juventude atual
Romance híbrido mescla literatura e cinema em fluxo onde sexo é o mote principal

Hoje está um dia morto, de André de Leones,
Editora Record, 160 páginas. R$32,90.

Ronize Aline

Hoje está um dia morto, romance de estréia de André de Leones, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005, chega ao mercado cercado de expectativas se levados em conta seus dois antecessores. "Santo reis da luz divina", de Marco Aurélio Cremaso (Prêmio Sesc 2003), foi finalista do Prêmio Jabuti 2005 e "As netas da Ema", de Eugênia Zerbini (Prêmio Sesc 2004), teve sua primeira edição de quatro mil exemplares esgotada já no primeiro mês de venda, além de ser adotado nas escolas paulistas.

Pelo terceiro ano em que o prêmio é oferecido na categoria romance a escolha novamente prima pela diversidade. Depois de uma obra de contornos históricos e de uma prosa pautada pelas dúvidas e questionamentos do universo feminino, o novo vencedor é um turbilhão iconográfico da juventude atual no qual as palavras, mais do que texto, formam imagens - reflexo da formação cinematográfica do autor. A trama central passa-se em um único dia - seguindo uma tradição cujo maior destaque é "Ulisses", de Joyce - e tem como protagonistas Jean e Fabiana, dois jovens atolados numa tristeza confessadamente ancestral.

Jean está sozinho em casa enquanto seus pais viajam para tentar salvar o casamento e Fabiana será sua companhia nessa falta de perspectiva norteada por apenas uma coisa: sexo. E se o sexo já está presente na primeira cena do livro, não é demonstração gratuita mas o mote de toda a obra, a forma mais constante desses jovens se expressarem. Não que isso signifique a entronização da experiência sexual, ela é apenas mais uma alternativa: "a outra seria alugar um DVD. Ou encher a cara num boteco". Nos intervalos Jean despeja sua cultura cinematográfica e Fabiana delicia-se com Oswald de Andrade.

André utiliza uma linguagem que reproduz com exatidão o fluxo incontinente dessas vidas que sentem necessidade de racionalizar cada sentimento: na pontuação que denota a falta de ordenamento, no pensamento interrompido pois tornado descartável, na inserção de planos de cinematografia e no surgimento de novas palavras que tornam a urgência palpável, como 'portaberta' e 'tristealegremente'. Essa urgência muitas vezes interrompe o narrador e faz com que os personagens sobreponham sua experiência à experiência narrada, o que resulta num brilhante dueto entre narração e ação. Destaca-se o entrecruzamento de diálogos entre Jean e a freira diretora e Fabiana e a bibliotecária, como se o cineasta André dividisse a tela em duas e nos permitisse assistir às cenas em real time - como ele mesmo escreveria. E nos surpreende na pequena segunda parte quando o descompasso anterior dá lugar a uma tentativa de ordenamento por parte de um terceiro personagem - quase uma consciência externa que impinge-se a tarefa de decifrar e registrar os acontecimentos narrados anteriormente. Com "Hoje está um dia morto" temos um bem construído exemplar do romance de formas híbridas que tomou força no século XX e que aqui nos revela um promissor expoente.


Ronize Aline postou às 15:27
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6.1.07
A secretária de Borges no Prosa&Verso

Saiu hoje a primeira das duas resenhas que fiz há algum tempo sobre os livros vencedores do Prêmio SESC de Literatura 2005 para o caderno Prosa&Verso. 'A secretária de Borges' venceu na categoria Contos e é a resenha dele que está hoje no Globo. Para quem não leu, deixo aí embaixo:

Mosaico de promessas em um livro de estréia

Nas histórias de 'A secretária de Borges', Lúcia Bettencourt (re)cria universos conhecidos

Ronize Aline

Vez por outra os autores saem de trás de suas penas e entram na narrativa. Jorge Luis Borges, cuja vida e obra eram constantemente comparadas, é um dos que têm sido levados nesse percurso, somando personagens como Jorge de Burgos, o monge cego guardião da biblioteca do mosteiro beneditino de 'O nome da rosa', de Umberto Eco, e o detetive de 'Borges e os orangotangos eternos', romance policial de Luis Fernando Veríssimo. A secretária de Borges, de Lúcia Bettencourt, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005 na categoria contos, foi lançado em 2006, ano em que se comemorou as duas décadas de morte do escritor argentino e vem juntar-se à galeria. No conto que dá titulo à obra, Lúcia recupera um Borges em seu momento talvez mais emblemático: a cegueira e a continuidade do seu processo criativo.

Pois é sobre o processo criativo que Lúcia se debruça para (re)criar seu Borges-personagem. Uma secretária vem em socorro do escritor cuja visão, que se torna a cada dia mais nebulosa, já não o permite colocar no papel suas idéias. Não se contentando em apenas copiar o que lhe é ditado, ela modifica ousadamente as histórias. Apesar de todas as mudanças, Borges ainda se reconhece naqueles textos, transformada que está em espelho a antiga secretária da família - ou o espelho seria ele?

Como a própria secretária de Borges, Lúcia dá novo tratamento literário não apenas a esse episódio mas também aos últimos momentos de Marcel Proust, a uma metamorfose kafkiana às avessas e a um episódio histórico que envolve Salomé. A autora se mostra segura em recriar universos conhecidos e imprimir o seu tom, como em 'O inseto', a história da barata que se transforma em homem, em que um desenvolvimento bem construído instiga para a conclusão.

É de se esperar que um primeiro livro de contos seja um mosaico das promessas do novo escritor. Ao lado de contos vibrantes em que a autora explora a própria literatura, com a recuperação de outras histórias ou brincando com a estrutura narrativa, há contos mais líricos e menos surpreendentes - como 'O divórcio', 'Toques' e 'Minha avó dançava charleston' - que apontam para outras possibilidades. Mas é nos contos que confirmam a máxima de Cortázar - de que no gênero o escritor deve vencer o leitor por nocaute - que Lúcia mostra todo o seu potencial. 'Trilogia telefônica' (que enreda o leitor pela mudança de foco narrativo), 'Sossega, Leão!' (em que passado e presente se entrelaçam), 4% (um dos melhores nocautes do livro), 'Herodíades' (uma espécie de solilóquio envolvente da mãe de Salomé) e os já comentados 'A secretária de Borges' e 'O inseto' mostram que, tendo diferentes possibilidades à mão, as narrativas em que Lúcia ousa (tal qual a secretária de Borges), seja no ritmo, na estrutura do texto ou na força (re)criativa, são sua melhor aposta.


Ronize Aline postou às 13:47
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