Mais resenha no Prosa&Verso
No último sábado, dia 27, saiu mais uma resenha minha no suplemento literário d'O Globo. O texto é sobre o livro de André de Leone, "Hoje está um dia morto", vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 na categoria romance - juntamente com o "A secretária de Borges", publicado n'O Globo e reproduzido abaixo.
Eis a resenha:
Turbilhão iconográfico da juventude atual
Romance híbrido mescla literatura e cinema em fluxo onde sexo é o mote principal
Hoje está um dia morto, de André de Leones,
Editora Record, 160 páginas. R$32,90.
Ronize Aline
Hoje está um dia morto, romance de estréia de André de Leones, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005, chega ao mercado cercado de expectativas se levados em conta seus dois antecessores. "Santo reis da luz divina", de Marco Aurélio Cremaso (Prêmio Sesc 2003), foi finalista do Prêmio Jabuti 2005 e "As netas da Ema", de Eugênia Zerbini (Prêmio Sesc 2004), teve sua primeira edição de quatro mil exemplares esgotada já no primeiro mês de venda, além de ser adotado nas escolas paulistas.
Pelo terceiro ano em que o prêmio é oferecido na categoria romance a escolha novamente prima pela diversidade. Depois de uma obra de contornos históricos e de uma prosa pautada pelas dúvidas e questionamentos do universo feminino, o novo vencedor é um turbilhão iconográfico da juventude atual no qual as palavras, mais do que texto, formam imagens - reflexo da formação cinematográfica do autor. A trama central passa-se em um único dia - seguindo uma tradição cujo maior destaque é "Ulisses", de Joyce - e tem como protagonistas Jean e Fabiana, dois jovens atolados numa tristeza confessadamente ancestral.
Jean está sozinho em casa enquanto seus pais viajam para tentar salvar o casamento e Fabiana será sua companhia nessa falta de perspectiva norteada por apenas uma coisa: sexo. E se o sexo já está presente na primeira cena do livro, não é demonstração gratuita mas o mote de toda a obra, a forma mais constante desses jovens se expressarem. Não que isso signifique a entronização da experiência sexual, ela é apenas mais uma alternativa: "a outra seria alugar um DVD. Ou encher a cara num boteco". Nos intervalos Jean despeja sua cultura cinematográfica e Fabiana delicia-se com Oswald de Andrade.
André utiliza uma linguagem que reproduz com exatidão o fluxo incontinente dessas vidas que sentem necessidade de racionalizar cada sentimento: na pontuação que denota a falta de ordenamento, no pensamento interrompido pois tornado descartável, na inserção de planos de cinematografia e no surgimento de novas palavras que tornam a urgência palpável, como 'portaberta' e 'tristealegremente'. Essa urgência muitas vezes interrompe o narrador e faz com que os personagens sobreponham sua experiência à experiência narrada, o que resulta num brilhante dueto entre narração e ação. Destaca-se o entrecruzamento de diálogos entre Jean e a freira diretora e Fabiana e a bibliotecária, como se o cineasta André dividisse a tela em duas e nos permitisse assistir às cenas em real time - como ele mesmo escreveria. E nos surpreende na pequena segunda parte quando o descompasso anterior dá lugar a uma tentativa de ordenamento por parte de um terceiro personagem - quase uma consciência externa que impinge-se a tarefa de decifrar e registrar os acontecimentos narrados anteriormente. Com "Hoje está um dia morto" temos um bem construído exemplar do romance de formas híbridas que tomou força no século XX e que aqui nos revela um promissor expoente.





