Um espectador inocente...
é o título do livro do qual fiz a resenha que foi publicada no Prosa&Verso do Globo no último sábado. Esta resenha faz parte do projeto muito interessante levado adiante pelo suplemento de publicar uma vez por mês uma resenha de um livro veiculado apenas na internet. As resenhas visam a chamar a atenção e dar espaço a textos ainda inéditos em papel. Eis a resenha:
Um olhar distante sobre o cotidiano
Autor escreve sobre solidão e marasmo a partir de personagens decadentes
Um espectador inocente,
de Roberto Motta.
www.ladroesdefogo.blogspot.com
Os personagens dos treze contos de "Um expectador inocente", de Roberto Motta, poderiam ser o protagonista de um único romance. Todos eles compartilham uma mesma postura frente à vida, um mesmo modo de encararem seu papel num cotidiano que se assemelha a um teatro de marionetes cujas cordas, por vezes, se emaranham e confundem o próprio mestre bonequeiro. São solitários, decadentes, desencantados talvez até consigo próprios, tentando sustentar-se numa sanidade que parece querer esvair-se pelos poros; e o fato de o autor dar destaque ao narrador em primeira pessoa ajuda a conceder essa unidade à obra.
No entanto, esse desencanto demonstrado pelos personagens parece contaminar o próprio autor. O mesmo marasmo levado adiante, simplesmente porque falta-lhes o entusiasmo até mesmo para pôr fim a tudo, impregna a escrita e nos revela um texto sem muitos anseios - tal qual o dia-a-dia de suas criações. Isso deve-se, em sua maioria, à escolha de Motta em fazer com que seus personagens contem suas histórias em vez de colocá-los em ação. Os fatos não acontecem, fazem parte da memória de alguém, que os resgata para seu interlocutor e para nós, leitores. Com isso, cria-se uma linha imaginária que nos mantêm de fora, como o expectador inocente do título, a quem foi negado participar da grande aventura que a literatura costuma proporcionar. Um exemplo é o conto "Claudia", no qual o ponto alto da história - que tem lugar no aeroporto - é apenas uma memória trazida à tona num preâmbulo totalmente desnecessário e que minimiza a força do enredo.
Esse mesmo conto repete o desafio presente em outros: como manter no final o mesmo nível alcançado durante o clímax? Motta trabalha bem o início de suas histórias e em algumas, a despeito de estarem sendo contadas e não vividas, consegue estabelecer uma expectativa crescente que, infelizmente para nós, leitores, não se concretiza. Nem todo conto precisa encerrar com um soco na boca do êstomago, daqueles de deixar o leitor sem fôlego, mas tampouco pode prescindir de sua força e cair no lugar-comum. No conto em questão, a declaração auto-explicativa da senhora no aeroporto põe por terra a bem trabalhada construção de dois parágrafos anteriores. Tal qual o texto que abre o livro, "Nove dias", em que o autor insinua no personagem uma ação mais definitiva - para sua vida e para o conto - mas contenta-se em deixar em suspenso qualquer possibilidade. Talvez o intuito seja exatamente manter a história em aberto e oferecer ao leitor a chance de criar seu próprio final; o que talvez com o tempo e a maturidade estilística o autor venha a alcançar. No momento, o que prevalece é a sensação de que faltou nos entregar algo que fora prometido.
Motta situa várias de suas cenas em locais do Rio de Janeiro: Copacabana, Flamengo, Botafogo, Passeio Público. Mas a participação da cidade se resume a isso - citações - nada que chegue a transformá-la em mais um personagem. Não há o clima, os cheiros e os sons desses lugares, não os reconhecemos em suas identidades tão únicas; e, sem isso, são apenas nomes recitados aleatoriamente, não desempenham nenhuma função nas histórias. Lugares que poderiam fazer parte de qualquer outra cidade.
Da metade para o final do livro o autor parece ensaiar tirar os pés do chão, assim como o protagonista de "Mas não agora". "O pagamento de uma vida justa e correta tem que ser mais do que isso", é o que diz e que parece reverberar em Motta, que rompe o modelo que vinha trabalhando até então e consegue manter a mesma força do início ao fim do conto. O seu final, de tão simples, chega a ser perfeito. Igualmente afinados são os contos "Quinze minutos" e "A conclusão". No primeiro, ele investe na ação intercalando e sobrepondo as cenas, conseguindo com isso um efeito mais dinâmico; no segundo, permite que seu personagem tome as rédeas de seu destino para sair da mesmice - ao mesmo tempo em que traz o leitor para dentro do bar onde se desenrola a cena.
O livro trata dos pequenos instantâneos do cotidiano, aqueles que muitas vezes não nos damos conta mas que são representativos da personalidade e do caráter de cada um. Muitos escritores têm utilizado tais momentos como matéria-prima para sua literatura. Nessa sua escolha, Motta está olhando para a direção certa, trabalhando personagens com características que talvez lhe sejam mais confortáveis ou interessantes, focando no que os tornam humanos. Basta apenas apurar o olhar para aquilo que os tornam personagens da literatura.





